Arquivo da categoria: literatura

BIBLIOTECA DENTRO DE PADARIA

Muito legal essa iniciativa: uma biblioteca que funciona dentro de uma padaria! A ideia vem do Paraná, onde a panificadora Pão de Mel compartilha livros com seus clientes. Não tem carteirinha, cadastro, nada! É só pegar e devolver quando quiser.

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SOBRE VIRGINIA WOOLF

Nascida em Londres em 1882, Virginia Woolf foi responsável por uma obra que desperta tanto interesse quanto a sua própria trajetória de vida. Frequentando desde cedo o mundo literário, sua carreira começou aos 22 anos de idade, com o romance “A Viagem”. Sua obra se caracteriza principalmente pelo fluxo de consciência, empregando recursos narrativos inovadores para retratar a experiência individual. A escritora foi parte do Bloomsbury, um grupo que reunia intelectuais dispostos a investir contra as tradições literárias, políticas e sociais da era vitoriana.

Em 1941, vítima de grave depressão, Virginia encheu os bolsos de pedras e se suicidou no Rio Ouse, após uma vida inteira dedicada à literatura. Seu legado inclui 9 romances, 40 contos, 2 biografias ficcionais e uma verdadeira, aproximadamente 500 ensaios, 4000 cartas e quase 50 anos de diários.

SOBRE CLARICE LISPECTOR

Um dos principais nomes da literatura brasileira no século XX, Clarice Lispector foi responsável por mais de dez obras que fascinam uma legião de fãs ao redor do mundo. Nascida na Ucrânia, a escritora veio com sua família para o Brasil em 1922, com apenas dois meses de idade, fugindo da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa. Seu primeiro livro, “Perto do Coração Selvagem”, foi publicado quando Clarice tinha 19 anos, e já exibia traços que viriam a ser marcantes em sua escrita, como a problemática de caráter existencial. Completamente inovador para o padrão literário da época, seu estilo solto rendeu o apreço da crítica especializada, que chegou a declarar que há uma literatura brasileira A.C. (Antes da Clarice) e D.C. (Depois da Clarice).

Pouco depois da publicação de seu mais conhecido romance, “A Hora da Estrela”, Clarice foi hospitalizada com câncer no ovário e faleceu em 1977, deixando um legado que influenciou gerações futuras.

EU QUERIA SER COMO O OZZY

por Angélica Bito

 

Sempre digo que, para que uma pessoa goste de Heavy Metal, ela precisa ter gostado disso aos 12 anos. Me parece uma idade muito crucial para gostar de Metal. Nunca vi nenhum cara que, aos 27, vira e fala: “estou conhecendo umas músicas novas e curtindo, são de bandas de Metal”.

Eu não gostava muito de Metal quando tinha 12 anos. Na realidade, gostava era de Nirvana. Mas gostei de coisas similares: Guns N’ Roses, Skid Row, um pouco de Black Sabath. Mas o que mais conhecia de Ozzy Osbourne antes de ler Eu Sou Ozzy vinha do reality show The Osbournes, uma megafebre em meados da década passada.

Não havia muitos motivos, portanto, que me levassem a comprar uma edição de Eu Sou Ozzy, perceba. Mas tantas pessoas realmente bacanas falaram tão bem desse livro pra mim que me joguei de cabeça. Não liguei para a cara de choque de outras quando eu dizia que queria ler ‘o livro do Ozzy’. Porque, você sabe, existe muito preconceito em relação ao Metal. Conheço muito indie mala que ouve Kenny G em casa e fica falando que a banda favorita é Sonic Youth. Tudo bem, até aí, mas pelo menos admite que curte Kenny G. Depois de uma idade, admitir que você curte umas coisas que nem são tão bem vistas é libertador. Como quando cantei Paramore no videokê. Mas isso é caso para outro post. O fato é que devo ter chegado a essa idade e assumo, em público, que um dos melhores livros que li nos últimos anos chama-se Eu Sou Ozzy. E vou te dizer por quê.

Ozzy Osbourne é um sobrevivente e, rapaz, qualquer pessoa que sobreviva a décadas de rock’n’roll, sexo e drogas – tudo isso vivido intensamente -, só deve ser um cara protegido por Deus ou qualquer outra coisa que exista nesse mundo. De uma forma extremamente engraçada, como se estivesse conversando com o motorista ou o presidente de alguma gravadora, Ozzy – com a ajuda mais do que necessária do jornalista Chris Ayres, que o ajudou a organizar as ideias e histórias em meio a décadas de drogas e memórias perdidas por elas – narra acontecimentos notáveis em sua vida.

Ozzy não é nenhum herói e nem tenta enganar alguém; ele sabe que não é um santo e está tudo bem. Mas pelo menos o cara tem senso de humor e isso é mais do que essencial em qualquer ser humano, deveria vir de fábrica. Deveria, mas não vem, infelizmente. Ozzy, no entanto, veio com esse item. Ele sempre foi o destaque no Black Sabbath não somente por ter sido o vocalista – figura que, naturalmente, atrai as atenções numa banda -, mas por essa presença de palco, essa falta de pudor que tanto atrai nossa atenção. Ozzy é um louco, se meteu nas situações mais malucas ao longo de sua vida e é isso que acompanhamos de forma clara e divertida em ‘Eu Sou Ozzy’.

A narrativa é fluida, as histórias são interessantes e extremamente engraçadas. Mas, além de ser maluco, Ozzy é um cara apaixonado: pelas drogas, pela música, pelos filhos, por Sharon, pelo rock. Portanto, o livro tem dois elementos que deveriam guiar a vida de qualquer pobre coitado que resolva sobreviver, como eu e você: paixão e humor. Existem passagens tristes, duras, porque não há vida bem vivida sem os espinhos, certo? Mas existe também uma coisa meio No More Tears (sim, eu tinha de citar o nome de uma das músicas do Ozzy), não de conformismo, mas de entendimento mesmo, de amadurecimento. Ozzy é um cara que viveu e isso é sempre bom de se ver.

Você pode ser um daqueles indies malas. Talvez eu também seja. Não tem problema, desde que viva bem com isso. Mesmo pra você, é esse o conselho que dou: dê uma chance a Eu Sou Ozzy. Não tem como não admirar Ozzy Osbourne por ele ter superado tantas coisas e ainda ser um tremendo de um milionário, ter uma família bacana e ainda escrever um livro como este.

Eu Sou Ozzy

Ele é Ozzy

SOBRE PAUL AUSTER E GUIDED BY VOICES

O grande Paul Auster.

Que tipo de música você gosta de ouvir enquanto está lendo um livro? Qual a melhor trilha sonora para aquele momento sagrado da leitura? Eu estava pensando nisso hoje no caminho pro trabalho e agora, sentada com o notebookzinho no colo, me lembrei de uma duplinha de ouro. O grande Paul Auster combinado com o grande Guided by voices.

Paul Auster é realmente um grande nome. Escritor experiente, mago da ficção combinada com pitadas autobiográficas, um belo fumante, dono de olhos misteriosos e extremamente cool. Mas extremamente mesmo.

É bastante comum, para aqueles que querem começar a ler Paul Auster, pegar A trilogia de Nova York logo de cara. Eu também acho um bom ponto de partida e aconselho. Mas, com o tempo, a gente começa a perceber que a trilogia não é seu livro mais marcante. É um bom ponto de partida mas não é a essência. Paul escreveu outras obras, contos e romances, tão ou mais interessantes que a trilogia. As décadas de 80 e 90 foram bem produtivas para Paul. Mas enfim. Paul Auster é um escritor que merece ser descoberto com carinho e com paciência. Existe, por exemplo, todo um universo relacionado ao cotidiano das pessoas “médias” dos Estados Unidos no texto de Paul Auster, desenvolvido com um método bem eficaz de “a história dentro da história dentro da história dentro da história”. Na maioria das vezes, chega uma hora em que você já não sabe se aquilo que se passa na trama realmente está acontecendo com o personagem. A coisa toda evolui pro quase nonsense, pro irreal, pro subjetivo.  Eu te garanto, assim que você começar a explorar livros lindos dele como A invenção da solidão e O livro das ilusões, você vai perceber tudo isso aí.

E o mais interessante é que mesmo os seus livros mais recentes (dos anos 2000 pra cá) são muito, muito bons. O mais novo se chama Invisível e é uma pequena joia. Foi justamente lendo Invisível que eu descambei a retomar o som do também belo e extremamente cool Guided by voices. Na época, eu estava me reaproximando de um disco deles de 1995, chamado Alien lanes. E rapaz. Que discão. Eu fui fuçar uns videozinhos do Guided no Youtube e li um comentário tocante, com o qual me identifiquei: a pessoa comentava que explorar Guided by Voices “it’s like hearing your neighbour’s radio and he’s changing station everytime your favourite song starts”. Na verdade, a pessoa se referia à forma simples como o Alien lanes foi gravada, quase que (na minha opinião, pelo menos) totalmente caseira  – daí a sensação de escutar o rádio de seu vizinho -, e às músicas de pequena duração. A maior parte das canções de Alien lanes dura um minuto, um minuto e meio, às vezes menos de um minuto. Músicas perfeitas e breves. E o melhor: os discos do Guided em geral têm 28, 30 músicas.

A cabeça por trás do Guided by voices é o senhor Robert Pollard. Pollard é um criador incansável, pra mim quase um mito. E ex-professor, believe it or not. A discografia do Guided é imensa (eu já contei quase 70 discos, entre EPs, discos inteiros, discos ao vivo; olha esse site aqui). E o senhor Pollard lá, sempre compondo, firme e forte. Comece ouvindo Alien lanes, de 1995. Depois vá para Bee thousand, de 1994. Em seguida você pode ouvir o belíssimo Devil between my toes, de 1987. E por aí vai. Não esquece do Paul Auster pra combinar. ; )

O grande Bob Pollard.

O CASAMENTO E A VIDA

E aí, curte um casamento?

É meio complicado indicar um livro mesmo sem ter terminado de ler, eu sei. Mas estou adorando Committed (Comprometida), última obra da americana Elizabeth Gilbert (sim, sim, aquela de Comer Rezar Amar). O lance é que o livro está me fazendo pensar muito. Até demais, acho. É que eu tenho uma mania horrível de não saber separar muito bem livro de realidade. Eu vou lendo tudo como se fosse verdade absoluta, sem filtros.

Ops, foco.

Mas então, eu achava que o livro apenas se resumia à rotina do casamento (Liz casou-se pela segunda vez), como funciona casar-se novamente depois de passar por um divórcio traumatizante. Mas não! Pelo menos não até então (eu estou na metade do livro).

A história do casamento, porque as pessoas se casavam e se casam, divórcio, a ciência da paixão, amor… é um livro sobre isso. Liz fez alguns estudos a respeito e, com base em fatos, faz reflexões muito pertinentes e questionamentos muito bacanas. É como se ela fosse aprendendo e entendendo o grande lance das coisas enquanto escreve. Fiquei umas boas horas refletindo sobre o trecho em que Liz tenta explicar o que é de fato a paixão, a constante busca pela “cara metade”, a sensação de vazio que todo ser humano sente. E ela cita de tudo: Platão, Aristóteles, Goethe, Kant, Budha e por aí vai.

Acho que o que mais me agrada nessa escritora é que ela é uma grande curiosa e observadora, viu. E acho uma delícia aprender com as vivências e observações dela.

Capa do livro em português. Uma história de amor, nada! O subtítulo original é "A Skeptic Makes Peace With Marriage". #tradutorafeelings

NUM APARTAMENTO PERDIDO NA CIDADE…

Summer Interior, Edward Hopper

Affe…

Ô resfriado dos infernos. Já foi o Naldecon Dia e agora já apelei pro Naldecon Noite. Faltei na faculdade e resolvi ficar em casa, tomar um banho quentinho, saborear uma canja quentinha e cair na cama. Aí subitamente senti saudades da minha mãe, daqueles cuidados todos que a gente recebe das mães quando se fica doentinho e tals. E me vi sozinho, no quarto, esperando o Naldecon Noite chegar e me levar pra terra-do-não-espirro, observando as paredes e os móveis. Porém, antes de dormir, fui ler um artigo sobre o Carlos Drummond de Andrade e esbarrei nesse poema, Onde Há Pouco Falávamos, lindo lindo lindo. Porque às vezes a gente só quer a segurança das paredes e dos móveis e das lembranças antes de acordar e enfrentar novamente o dia, o resfriado, as saudades, o tempo e a velhice.

É um antigo
piano, foi
de alguma avó, morta
em outro século.

E ele toca e ele chora e ele canta
sozinho,
mas recusa raivoso filtrar o mínimo
acorde, se o fere
mão de moça presente.

Ai piano enguiçado, Jesus!
Sua gente está morta,
seu prazer sepultado,
seu destino cumprido,
e uma tecla
põe-se a bater, cruel, em hora espessa de sono.
É um rato?
O vento?
Descemos a escada, olhamos apavorados
a forma escura, e cessa o seu lamento.

Mas esquecemos. O dia perdoa.
Nossa vontade é amar, o piano cabe
em nosso amor. Pobre piano, o tempo
aqui passou, dedos se acumularam
no verniz roído. Floresta de dedos,
montes de música e valsas e murmúrios
e sandálias de outro mundo em chãos nublados.
Respeitemos seus fantasmas, paz aos velhos.
Amor aos velhos. Canta, piano, embora rouco:
ele estronda. A poeira profusa salta,
e aranhas, seres de asa e pus, ignóbeis,
circulam por entre a matéria sarcástica, irredutível.
Assim nosso carinho
encontra nele o fel, e se resigna.

Uma parede marca a rua
e a casa. É toda proteção,
docilidade, afago. Uma parede
se encosta em nós, e ao vacilante ajuda,
ao tonto, ao cego. Do outro lado é a noite,
o medo imemorial, os inspetores
da penitenciária, os caçadores, os vulpinos.
Mas a casa é um amor. Que paz nos móveis.
Uma cadeira se renova ao meu desejo.
A lã, o tapete, o liso. As coisas plácidas
e confiantes. A casa vive.
Confio em cada tábua. Ora, sucede
que um incubo perturba
nossa modesta, profunda confidência.

É irmão do corvo, mas faltam-lhe palavras,
busto e humour. Uma dolência rígida,
o reumatismo de noites imperiais, irritação
de não ser mais um piano, ante o poético sentido da palavra,
e tudo que deixam mudanças,
viagens, afinadores,
experimento de jovens,
brilho fácil de rapsódia,
outra vez mudanças,
golpes de ar, madeira bichada,
tudo que é morte de piano e o faz sinistro, inadaptável,
meio grotesco também, nada piedoso.

Uma família, como explicar? Pessoas, animais,
objetos, modo de dobrar o Unho, gosto
de usar este raio de sol e não aquele, certo copo e não outro,
a coleção de retratos, também alguns livros,
cartas, costumes, jeito de olhar, feitio de cabeça,
antipatias e inclinações infalíveis: uma família,
bem sei, mas e esse piano?

Está no fundo
da casa, por baixo
da zona sensível, muito
por baixo do sangue.

Está por cima do teto, mais alto
que a palmeira, mais alto
que o terraço, mais alto
que a cólera, a astúcia, o alarme.

Cortaremos o piano
em mil fragmentos de unha?
Sepultaremos o piano
no jardim?
Como Aníbal o jogaremos
ao mar?
Piano, piano, deixa de amofinar!
No mundo, tamanho peso
de angústia
e você, girafa, tentando.

Resta-nos a esperança
(como na insônia temos a de amanhecer)
que um dia se mude, sem noticia,
clandestino, escarninho, vingativo,
pesado,
que nos abandone
e deserto fique esse lugar de sombra
onde hoje impera. Sempre imperará?

(É um antigo piano, foi
de alguma dona, hoje
sem dedos, sem queixo, sem
música na fria mansão.
Um pedaço de velha, um resto
de cova, meu Deus, nesta sala
onde ainda há pouco falávamos.)

De: A Rosa do Povo, 1945.

um dia sentarei contigo.