ZUMBIS SÃO LEGAIS

por Angélica Bito

Quando eu era mais nova, gostava de filmes de terror. Acho que já comentei sobre isso por aqui. Mas, quando cresci, passei a renegar um pouco isso, principalmente os de zumbis. Quando comecei a trabalhar com cinema, acho que queria mostrar algum tipo de conhecimento ou senso crítico em relação ao cinema, então tive essa coisa de renegar filmes de zumbis. Não estou dizendo que estava correta, pelo contrário. Admito minha imaturidade sem problemas nenhum. Querer se afirmar é complicado, especialmente se você é jornalista. É preciso colhões assumir algumas coisas e, com mais de dez anos de profissão, já sou capaz de abraçar novamente essa minha paixão pelos mortos-vivos.

Cena de 'Madrugada dos Mortos'

Miolos!

Não há muito segredo nesses personagens. Eles morreram e voltaram a vida sedentos por miolos, basicamente, como nos ensinaram os filmes de George A. Romero. Mas os zumbis não existem somente no cinema ou na aula de história (Zumbi dos Palmares está aí rondando nossa mente desde as aulas de história a infância). Os mortos-vivos são comuns nas crenças haitianas desde muito antes de Romero ter aprendido a palavra “zumbi”. Estudiosos relatam que as lendas urbanas relacionadas aos zumbis vêm dos rituais vudu comuns no Haiti nos quais mortos ganham seus movimentos de volta, mas não retornam à vida, necessariamente, por que voltam sem mente, sem personalidade, vontade e essas coisas que os humanos têm. Estes zumbis haitianos tornam-se escravos sem mente. O livro O Guia de Sobrevivência a Zumbis, de Max Brooks, é um livro de ficção que leva bem a sério a fisiologia dos mortos-vivos, explicando por que eles andam se arrastando, como é a visão e o olfato dessas criaturas, por exemplo, tornando-se um clássico na literatura estrelando os zumbis.

Um dos primeiros filmes a trazer um morto-vivo como protagonista é O Golem, de 1920, no qual o zumbi é uma coisa meio estátua animada/ robô/ morto-vivo. Embora eles sejam bem presentes na literatura, os zumbis são mais populares no cinema mesmo – terreno no qual eu realmente os aprecio. Acho que essa apreciação está muito relacionada aos meus sentimentos mais juvenis, essa coisa de achar legal esses caras comendo miolos. Além de A Noite dos Mortos-Vivos (confesso que o primeiro que vi foi o remake de 1990, no Cine Trash, para depois ver o original, de 1968), um outro que me marcou muito foi Fome Animal (1992), um dos primeiros filmes de Peter Jackson – que na década seguinte ficou famoso pelos filmes da série Senhor dos Anéis. Fome Animal tem o trash e o suspense dos filmes de zumbis, além de incorporar doses cavalares de humor. A mistura de mortos-vivos e humor, aliás, é sempre muito apreciada por mim. Além de Fome Animal, outros dois que são verdadeiros campeões nesse mix são Todo Mundo Quase Morto e Zumbilândia.

Embora os zumbis estejam por aí há muito tempo, eles nunca foram esquecidos. Até cineastas mais cult, como Danny Boyle, já se meteu com mortos-vivos cheios de energia – até demais, o que causou estranhamento, mas foi bem-recebido – em Extermínio. Zach Snyder, que acabou de ser confirmado como diretor do próximo filme do Super-Homem, mostrou a que veio em 2004 com Madrugada dos Mortos, remake do longa homônimo dirigido por Romero em 1978. O longa de Snyder é fiel à obra original, tenso, bem-dirigido e assustador, elementos essenciais quando estamos falando de um filme de zumbi que tem como base um longa de Romero. É um clássico moderno do gênero. Outro filme que me vem à cabeça é Cemitério Maldito (1989), filme que embalou tantos pesadelos quando eu tinha uns nove anos. Baseado em livro de Stephen King (um dos poucos que li do autor), o filme acompanha o drama de um médico que se muda a uma pequena cidade norte-americana numa vizinhança pacata, mas que abriga um cemitério de animais (daí vem o nome original do terror, Pet Sematary) que, na realidade, tem propriedades estranhas capazes de trazer os mortos à vida. Mas, diferentemente dos zumbis, eles voltam com personalidade, vontades e maldosos. Muito mais maldosos do que as criaturas comedoras de miolos. Geralmente, aliás, os zumbis não têm personalidade – pelo menos se forem desenvolvidos de acordo com a tradução. Mas o próprio Romero burlou esta regra em Dia dos Mortos (1985) e deu certo: Bub, um zumbi meio domesticado é um personagem bem bacana. Serviu de inspiração para Fido – O Mascote (2006), que apela para gêneros como drama, romance e comédia para contar uma história de zumbis.

Recentemente, a tecnologia 3D nos trouxe zumbis também em 3D: é o caso de Resident Evil 4: Recomeço. O filme não traz tantos zumbis legais, muito menos em 3D, mas zumbis são legais de qualquer jeito. Mas eu sei que gostar de filmes de zumbis é como gostar de heavy metal: se você não começou até os doze anos, dificilmente vai aderir à causa na idade adulta. Mas vale a tentativa. Acho que hoje aprecio mais o heavy metal do que aos 12, então ainda há esperanças!

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Uma resposta para “ZUMBIS SÃO LEGAIS

  1. pra variar tô atrasada. mas adorei o post! fiquei mto pensando como seria viver “sem mente, sem personalidade e sem vontades”. 😉

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