SOBRE COLETIVOS E PERFORMANCES

por Samanta Alcardo

 

Então, acabou de acontecer.  Eu tava no ônibus voltando pra casa, pensando na quinua e no chá de hibiscus (!) que a nutricionista mandou eu comprar e aí comecei a ouvir uma senhora falar. Falar ALTO. Ela tava naquele banco logo depois do cobrador, falando, gesticulando com alguém que eu não conseguia ver. Aí me estiquei toda e nada. Concluí que a mulher estava falando SOZINHA. Gesticulando e encarando o amigo imaginário. E fiquei prestando atenção.

A mulher falava de alguém que tinha brigado com ela. “Como que ele fala essas coisas pra mim? Ele é espírita macumbeiro! Eu sou evangélica!”

Pensei: “Que merda”.

E nisso o cobrador abre a bolsa e tira uma Bíblia. E começa a ler, quieto. Foi meio mágico.

E a mulher continuou e continuou falando MUITO. Eu já não conseguia ouvir. Só vi quando ela levantou pra descer e saiu falando “SABE COMO É QUE VOCÊ CONSEGUE AS COISAS NA VIDA? DOBRANDO O JOELHO E ORANDO!”. E falou tipo muito brava, transtornada, como se todo mundo no coletivo nunca tivesse rezado na vida.

Deu a louca em mim e corri pra descer no mesmo ponto que ela, só pra ver se ela ia descer e continuar falando. Nada! Ela desceu e saiu andando, séria, normal. Acho que nem tinha amigo imaginário, viu. Era o detalhe da performance mesmo.

Aí tive um momento Carrie-Bradshaw-I-couldn’t-help-but-wonder. O que acontece que as pessoas ficaram assim, insanas e transtornadas com suas religiões? Coincidência ou não, eu tenho muito pensado nisso nos últimos dias. Alguém explica por que todo mundo hoje é afetado e as igrejas têm shows e performances? Acho que a coisa estava ficando monótona demais, só pode ser. As pessoas precisam dessa afetação toda pra acreditar que estão sendo intensas de alguma maneira. Caso contrário, o medo paralisaria todo mundo, pra sempre. Medo da verdade, das entranhas, do interior, da vida.

Por isso é que eu sou muito mais a favor de uma abordagem tipo Thank U, da Alanis Morissette.  A coisa da espiritualidade como condição única, sem rituais, obrigações, punições, performances; só uma inspiração espiritual e pronto. Acho muito mais digno olhar pra própria vida e assumir a confusão toda. Procurar se resolver e se amar antes de se dedicar a outra causa.

Deve ser por isso que a Alanis tá pelada e sem maquiagem no clipe de Thank U. Pra mergulhar fundo ninguém precisa de adornos ou representações. Mas é preciso coragem, pode apostar.

Alanis em Thank U: pelada no metrô.

Anúncios

3 Respostas para “SOBRE COLETIVOS E PERFORMANCES

  1. eu AMO bafóns no transporte coletivo! e gente maluca que conversa assim, sem precisar de interlocutor. é que nem quem dança sozinho na buatchy. Pra quê interagir com alguém específico, não é mesmo? Mas de qualquer forma, em relação aos cultos religiosos, as igrejas têm “inovado”, com performances, gritos e exageros afins pra impressionar/cativar os fiéis. otherwise, tudo fica muito chato. e as pessoas querem circo, sempre! e GENIAL terminar com Alanis!

  2. surtos em ônibus dão uma animação na viagem. exceto quando eu estou envolvida. daí eu não curto. tchau!

  3. Hahaha, no meu ônibus quase todo dia tem alguém surtando! Geralmente xingando o motorista pedindo pra descer. Rsrs.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s