LER OU NÃO LER, EIS A SOLUÇÃO!

por Renato Barreto

É tão fácil desistir, deixar as coisas incompletas, não? Eu mesmo, agora, quase desisti de escrever esse post. Por pura preguiça. É aquela velha história, por que fazer hoje o que se pode fazer amanhã ou nunca mais, não é mesmo?

A questão é: certas coisas são extremamente prazerosas, mas isso por si só não garante nossa vontade de fazê-las. E tomo a liberdade de incluir nessa lista a leitura daqueles livros tidos como clássicos. Não sei vocês, mas me sinto muito mal quando começo a ler um livro e arrasto a leitura por semanas e semanas. Tudo bem que esse empenho em degustar literatura depende de uma série de fatores não relacionados à leitura em si: você tem que estar atento, disposto, confortável, relaxado, enfim, existe toda uma conjuntura, um timing apropriado a nos fazer mergulhar num livro. Agora, com trabalho, estudos, obrigações, rotina, enfim, com tudo isso ocupando nossas cabeças, conseguir ter esse momento ideal acaba se tornando uma tarefa árdua, senão utópica. E é aí onde reside minha culpa por abandonar um livro antes de terminá-lo.

Na minha galeria pessoal de livros preteridos, incluo A Divina Comédia, do Dante Alighieri, o primeiro livro que lembro ter abandonado antes do final da história. Foi uma leitura difícil, confesso. E depois de ter passado pelos capítulos sobre o Inferno e o Purgatório, não agüentei e desisti antes de chegar ao Paraíso! Complexo religioso bombando! Um pouco depois dessa época, me iniciei no mundo dostoievskiano com Crime e Castigo. Um livro denso, lento, cinza. Levei uns quatro meses pra chegar à derradeira página. Mas toda a morosidade da leitura foi bem recompensada, pois terminei completamente submerso no universo do personagem Raskólnikov e este livro se tornou um dos meus favoritos.

E agora faz semanas que estou enrolando pra concluir Madame Bovary, do Flaubert. E até me preparo pro linchamento de quem considera este livro um clássico imaculado, uma leitura obrigatória. Mas quer saber? Nessas horas em que os ‘grandes leitores’ colocam esses livros canônicos acima do bem e do mal, apelo a uma das definições de Ítalo Calvino para o que é um livro clássico, em seu livro Por que ler os clássicos: “Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los”.

Este é um dos problemas que prejudicam e deterioram a prática da leitura de literatura, a meu ver. Quase tudo na vida que é tido como obrigação automaticamente perde qualquer aura de prazer. Se você se sente obrigado a ler um livro porque todo mundo considera imperdoável você não ter lido ainda, ou se você lota sua estante com clássicos da literatura meramente por decoração e pra impressionar as visitas, pronto: esvai-se o prazer descompromissado que o livro poderia proporcionar.

Por essas e outras questões, estou curiosíssimo pra ler o livro Como Falar dos Livros que não Lemos?, do francês Pierre Bayard. A idéia defendida por Bayard é provocadora: segundo ele, ler um livro da primeira à última página não é necessariamente uma virtude. A leitura passaria por meios-termos como não abrir o livro, ouvir falar sobre ele, folheá-lo, o que não implica na leitura integral da obra. Descartar a vergonha seria primordial pro desenvolvimento de um leitor saudável. Por sua vez, outro francês, Daniel Pennac, publicou um ensaio chamado Como um Romance, no qual compartilha esse ponto de vista sobre a não-leitura, afirmando que é justamente a obrigação que afasta os leitores, que têm sim o direito de não ler, de pular páginas, ler qualquer coisa ou simplesmente não terminar um livro.

Ou seja, sem ressentimentos, sra. Bovary, mas foi bom enquanto durou! Au revoir!

 

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9 Respostas para “LER OU NÃO LER, EIS A SOLUÇÃO!

  1. haahha adorei o final!
    obrigações são porres mesmo, trabalhar por exemplo,rs.
    quanto aos livros eu abandonei o último do Dan Brown… Neste caso prefiro videogame!

    =)

  2. eu me sinto péssima quando abandono um livro.. mas acontece. adorei o ponto de vista sobre a não-leitura, aliás! :***********

  3. “Crime e Castigo” também é dos meus livros favoritos. E demorei uns seis meses pra lê-lo.
    Até hoje lembro de ter abandonado duas leituras: a de “O Processo”, do Kafka, e a de “Lolita”, do Nabokov. Mas ainda penso em retomá-las um da.

  4. eu tenho vários clássicos que nunca li! ficam só de enfeite na estante por enquanto. mas acho que alguns livros precisam ser lidos qdo a gente é mais velho…
    mas devo admitir que AMO madame bovary!

  5. nossa, fiquei realmente curioso pra saber o que você ama nesse livro! mas você também gostou de A Mulher de 30 Anos, então acho que entendo o tipo de história que te agrada!

  6. Confesso que, mesmo sendo formado em Letras, pulei alguns clássicos literários. Mas eles continuam na minha estante, ainda tenho esperança de lê-los um dia. É que nem quando eu desisto de um livro, eu deixo o marca-páginas onde parei. Quem sabe um dia eu não retomo a leitura? A esperança é realmente a última que morre pra mim, rs.

  7. Meus parabéns de outro uspiano da Letras que também não terminou “Madame Bovary” e que, mais teimoso, fez o mesmo com “Crime e castigo”. A gravura do fim estampa e encerra com primor o seu texto… hauahaauh

    Um beijo, Rê!

  8. adorei crime e castigo tambem,um livro fantastico.

  9. Adorei seu post. Resumindo um pouco a história sobre meu interesse, cheguei ao seu blog por causa dessa última figura fantástica do post. Com sua permissão, queria usá-la tb em um post em outro blog (http://www.livrosabertosaquitodoscontam.blogspot.com/), sobre o livro do Pennac que você comentou.
    Nossa…pontos de vista muito interessantes sobre a leitura dos clássicos… fico retardando a leitura de vários. É realmente muito difícil chegar no timming perfeito; mas também, já me sinto um pouco mais compreensiva a me perdoar parando o livro pelo meio ou até pelo começo.
    Ótimo seu post. Nesse blog que citei acima, aceitamos colaborações de novas idéias sobre a leitura. Essa seria uma boa contribuição… se vc permitisse, poderíamos postar lá, citando o blog. =]

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