OS DIAS SÃO NOITES

por Samanta Alcardo

Esse olho meio sem vida, pintado de preto e em close total, é a capa do mais novo disco de Rufus Wainwright, All Days Are Nights: Songs for Lulu. Eu achei uma capa meio perturbadora, um olho assim, tão escancarado, me parece por demais sincero e ao mesmo tempo intimidador.

Pois essa capa é extremamente fiel à atmosfera do disco. Tudo aqui é bem diferente de Release the Stars, último álbum de Rufus. Nada de vários instrumentos, músicas com ápices, aquela coisa “bicha chique lírica”, tão bem representada no último disco ao vivo que ele lançou (MIilwalkee at Last!).

Nada disso dessa vez. Só piano e voz.

All Days are Nights: Songs for Lulu é um disco cru, direto, exposto. O próprio Rufus o definiu como “sinistro, misterioso. É essencialmente o luto que vivi ao lado de minha mãe, enquanto ainda ela estava viva.” Rufus perdeu a mãe, a cantora Kate McGarrigle, em janeiro deste ano. Kate havia sido diagnosticada com câncer em 2006.

Se você estiver feliz e contente, não ouça esse disco. Ele vai passar batido e você vai achar uma chatice. Eu particularmente achei lindo porque aprecio discos sem meias palavras, jogados, não mastigados, tristes. Mas não é um disco que se pode ouvir a qualquer hora (há três faixas, uma seguida da outra, que são três sonetos de Shakespeare que Rufus musicou, veja só).

Ah, só pra constar, Lulu é uma personagem do filme Caixa de Pandora, de 1929, definida por Rufus como “um lindo desastre”. Olhem o que ele disse: “Eu me identifico com Lulu. É interessante porque desde que tomei um rumo na vida, tornei-me responsável, arrumei um namorado, uma casa própria, acho que na verdade não mudei. Tornei-me duas pessoas. Meu lado “claro” se desenvolveu, mas sempre continua existindo aquele lado negro, a “senhorita sombria”. As canções desse disco são como um sacrifício em nome desse lado negro. Eu, sozinho com o piano, expresso esse lado negro que todos nós temos.” E temos mesmo, Rufus.

Aproveitando a deixa, fica também a dica do novo disco de Martha Wainwright, irmã talentosa de Rufus. Ela acaba de lançar Sans Fusils, Ni Souliers, A Paris…, disco ao vivo em homenagem a Edith Piaf.

Eu já tentei, mas nunca consegui gosta de ouvir músicas em um idioma que eu não entenda (francês, nesse caso). Mas esse disco é um primor, recomendo. Martha arrasa no francês (ela cresceu em Quebec, está explicado) e sua voz linda emociona nas músicas sentimentais e dramáticas de Edith Piaf. Eu continuo preferindo os dois outros discos de Martha, cantando em inglês mesmo, mas esse vale uma tentativa.

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4 Respostas para “OS DIAS SÃO NOITES

  1. que capa incrível. o Rufus e a Martha são dois artistas da mais fina estirpe. e esses dois últimso discos são bem ousados, considerando que não são de agrado popular e tals. mas ainda assim, belíssimos!

  2. gostei muito do disco do rufus, só achei meio pesado de escutar ele inteiro numa sentada só… adorei a proposta de piano e voz desse cd, ficou lindo.

  3. olha bom, dica boa, vc tem um gosto musical legal! o/

  4. Nossa, que fina a Martha cantando Piaf! Super quero ouvir esses dois CDs, mas vou esperar o momento certo, hehe, principalmente pro do Rufus.

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