O FIM: APENAS O COMEÇO

por Angélica Bito

Eles ainda viverão alguns fins. E começos.

 

Já está disponível em DVD um dos filmes brasileiros lançados nos cinemas ano passado que mais me tocaram, daquela forma bem pessoal e mulherzinha que alguns filmes são capazes de tocar. É Apenas o Fim, um filme simples, rodado por um grupo de moleques estudantes de cinema da PUC carioca. Ou seja, é o tipo de cinema que deveria chegar mais às salas e às prateleiras de DVD do que realmente chega. Não é somente Matheus Souza e seus amigos que fazem cinema juntando grana com rifa de uísque; tem muita molecada aí produzindo cinema, mas eu nem você, caro leitor, temos acesso. A internet ajuda? Certamente. Mas nunca é o suficiente.

Apenas o Fim custou R$ 8 mil e foi rodado em alguns dias no próprio campus da faculdade. Matheus Souza, o diretor e roteirista, é um cara simpático, gente boa, então as pessoas que trabalharam neste filme não estavam querendo ficar ricas nem nada disso, mas acreditavam na ideia do rapaz, que na época não tinha mais do que 20 anos. A carreira do filme começou no Festival do Rio de 2008, o qual cobri. O que comentávamos era mais ou menos assim: “E aquele filme de R$ 8 mil dos moleques da PUC, quem viu?” Não vi e fiquei surpresa, relativamente, quando ele sagrou-se vencedor não somente do prêmio do público – afinal, não era difícil ver pessoas que trabalharam no filme entre uma sessão de outra. Aquela garotada, que esperava ansiosamente pelo Festival do Rio a cada ano, estava ali ocupando um lugar diferente na “cadeia alimentar” cinematográfica, num movimento similar com a Nouvelle Vague, quando a garotada que frequentava a Cinemateca Francesa passou a fazer filmes, na França dos anos 60 (mas que rende bem menos frutos do que o movimento francês, infelizmente).

E, assim como os franceses, Apenas o Fim parte do comum, desenvolve-se numa história também comum ao espectador e termina num local nada desconhecido a qualquer um que já esteve no fim de um relacionamento. A estrutura é simples: filmado em HD, com locações na PUC do Rio de Janeiro, o filme acompanha as últimas horas do relacionamento de Adriana (Erika Mader, sobrinha de Malu Mader) e Antônio (Gregorio Duvivier, de Podecrer!, excelente comediante). Ela chega na faculdade onde estudam dizendo que tem uma hora antes de ir embora para um local misterioso. Nessa última hora, o casal relembra momentos triviais da relação – como conversas sobre Power Rangers, Tamagochis, Mário Bros. e outras coisas da cultura pop que o pessoal de vinte e poucos anos, como os personagens e o próprio diretor (19, na verdade, quando ele escreveu este roteiro), têm como referência próxima.

Os personagens conversam o tempo todo, relembrando o relacionamento que tem hora para acabar. Triste, mas tratado com dignidade. Afinal, o fim não precisa ser aquele sofrimento de choros intermináveis e afins, tão clichê quando se fala do fim de um romance, mas sim a possibilidade de novos amores. É isso que a gente espera, especialmente quando é jovem como os protagonistas. Nada mais, nada menos. Eles sabem que o amor voltará a visitá-los, não existe essa aflição, esse drama todo que nós mesmos inventamos para nós. É um fim que sinaliza o começo de muitos outros fins. Simples, complexo, tudo ao mesmo tempo, como o amor e as relações são e sempre serão ao longo de tantos fins e começos.

Apenas o Fim pode ser simples, mas em momento nenhum é raso, superficial, pelo contrário, graças ao texto de Matheus Souza, que flui de forma extremamente natural na atuação de Erika e Duvivier, tão à vontade falando do que conhecem: amor e cultura pop. O resultado é um filme leve, divertido, de texto rápido, que lembra Woody Allen, os filmes de amor de Richard Linklater e, sobretudo, Domingos de Oliveira. Não à toa, o cineasta carioca praticamente adotou Souza, amizade que tem rendido alguns frutos no teatro. É o que chamamos de um pequeno grande filme mais sobre relações do que sobe o amor em si.

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2 Respostas para “O FIM: APENAS O COMEÇO

  1. e o tal do roteiro de filme de amor que depois virou de zumbi que a gente ia criar? =P

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