A (DES)EDUCAÇÃO AMOROSA PELOS FILMES

por Angélica Bito

“Ninguém se preocupa com o fato das crianças ouvirem milhares – literalmente milhares – de canções sobre amores perdidos e rejeição e dor e infelicidade e perda.” Esta frase foi escrita por Nick Hornby no livro da minha vida, Alta Fidelidade. Que clichê, uma jornalista apaixonada por cultura que se identifica com Rob Gordon, personagem deste livro. Mas acredito que todos somos clichês simplesmente por que crescemos nos espelhando nos clichês oferecidos não somente pelas canções de amores perdidos, mas filmes de amor, novelas, contos de fadas e essa coisa toda.

Ao mesmo tempo em que concordo que as músicas tristes são capazes de transformar pequenos seres humanos em grandes adultos dramáticos, os romances aos quais acompanhamos no cinema fazem o desserviço de nos fazer acreditar no amor eterno. Quero dizer, entendo que algumas pessoas devem experimentar isso na vida, mas são pouquíssimas. A gente cresce achando que, mesmo sendo uma prostituta de Los Angeles um dia encontraremos um cara rico, bonitão e pronto pra nos dar amor e alguns trocados (Uma Linda Mulher). A gente acha que, mesmo depois dos 40, é capaz de encontrar um cara incrível na forma de John Cusack pela internet (Procura-se um amor que goste de cachorros). Na maioria das vezes, a gente acha que a mulher só vive feliz se tiver um homem do lado – a própria definição de “felizes para sempre”, no plural, vem com esse conceito embutido. Sabe aquela cena na qual pequeno Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt) está assistindo a um filme romântico, vestindo uma camiseta do Joy Division, em (500) Dias com Ela? Define bem este retrato. Por que você acha que o garotinho de ABC do Amor sofre tanto quando acha que está sendo ignorado pela menina que ele gosta? Filmes.

Não sei se com rapazes essas coisas pesam da forma como pesam com meninas. Quando crianças, somos estimuladas a pensar no futuro não somente envolvendo o que seremos quando crescermos, mas também quantos filhos teremos, com quantos anos casaremos, etc. Daí, eu via filmes como Romeu + Julieta e Titanic – já na adolescência – e suspirava com romances épicos. Hoje, pergunto-me como raios eu suspirava e almejava esse tipo de romance intenso. Mas, peraí, eles nem tem filhos! Pois é. O paradoxo nas aspirações românticas começam aí mesmo. Como a gente sabe se eles eram fadados para acontecer, de acordo com os preceitos do destino, se todo mundo morre? De onde venho, romances eternos são aqueles nos quais as pessoas envelhecem juntos e tudo mais, não morrem na tenra idade.

Ao mesmo tempo, nutro certo respeito por essas histórias que acabam logo após intensa atividade. Nunca tive um romance eterno; mal converso com a maioria dos caras pelos quais fui apaixonada. Nenhum deles morreu, mas também não mantenho contato. Amor? Rolou, mas esqueci onde foi parar na maioria das vezes. Agora mesmo, quando peguei minha edição de Alta Fidelidade, vi que foi um ex que me deu. Cadê esse cara que acaba de ser lembrado? Não faço a mínima ideia e nem quero saber. Deve ser por isso que prefiro filmes mais honestos. Harry e Sally – Feitos Um Para o Outro, por exemplo, me parece muito mais real também pela forma como fica evidente a diferença das expectativas românticas entre homens e mulheres.

Embora tenha raiva de mim mesma por esperar romances cinematográficos em minha vida, confesso que ainda me emociono com essas tramas rocambolescas. Um ex-colega de trabalho me definiu bem: sou uma romântica enrustida. Sabe acreditar em amores intensos que acabam rapidamente de uma forma trágica? Paradoxo que me define. É meio complicado, por essa coisa enrustida que carrego, admitir que quase vomitei de tanto chorar com Diário de uma Paixão.

Mas uma coisa que sinto falta nos filmes é a forma como um amor pode ser a solução para tudo. Por isso, a conclusão de (500) Dias com Ela me incomoda um bocado. Talvez seja por causa dos filmes, que mostram a solução a tudo por meio de um novo amor, que as pessoas são tão carentes. “Existe uma certa dignidade em ser sozinha”, diz Janet, personagem de Bridget Fonda em Vida de Solteiro, e acho que este é um tipo de frase que deveria estar mais no cinema. Viver o romance é uma necessidade humana supervalorizada pela maioria das pessoas também por crescermos vendo isso também nos filmes. O triste fim nos faz sofrer, como as as músicas sobre corações dilacerados.

Está tudo ligado e, honestamente, não sei se há como escapar dessa ansiedade de viver um romance, dessa melancolia ao terminar um. Se eu soubesse, seria uma pessoa rica, não somente uma jornalista que fica elucubrando em público sobre o amor e suas dores.

Não se engane, é tudo mentira! Cena de 'Uma Linda Mulher'

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14 Respostas para “A (DES)EDUCAÇÃO AMOROSA PELOS FILMES

  1. acho que a minha deseducação se deu mais pela música do que pelos filmes…

  2. que engraçado, porque os filmes sobre amizade normalmente são mais honestos e verossímeis do que os sobre amores… deve ser porque as pessoas colocam essa aura em torno do “amor” e das coisas relacionadas, o que acaba afastando da noção real da coisa. enfim! eu estava ansioso pelo seu post e não me decepcionei! :***

  3. e detalhe: super consigo conectar o que você disse com meu último post!

  4. ai que bonitinho, re! concordo quanto a questão das amizades. é que o amor é um sentimento tão idealizado que as obras de ficção acabam refletindo isso.

  5. Texto incrível, só pra variar, amiga. Não sei, nunca sonhei em ter um grande amor, casar ou ter filhos. Quando era mais nova sempre me sentia diferente por isso. Só que você vai crescendo, vai vendo filmes… e pronto, cai na rede.
    Concordo com o Rê, a amizade é muito mais bem retratada nos filmes. Mas engraçado, isso não parece ajudar as pessoas a serem melhores amigas. *rs
    Enfim. Malditos filmes de amor, viu. Agora não sei por que lembrei que um dos últimos filmes que mais me fizeram chorar foi Um Beijo a Mais. E, só pra constar, também chorei em Diário de uma Paixão. :*

  6. Sabe oq eu acho que é a verdadeira deseducação amorosa pelos filmes? A noção errada de tempo que a gente adquire. Durante uma hora e meia na média (três horas pros épicos) a gente acompanha uma história completa entre duas pessoas (seja pra se conhecerem, pra terminarem ou oq o valha) e não é oq ocorre na real, pq nossa vida não é editada. Daí achamos que as coisas não são como nos filmes, mas aposto que com uma boa edição qualquer relacionamento passado daria um bom roteiro (alguns medianos). As pessoas desacreditam um pouco nas próprias histórias só pq elas não tiveram um final ainda. Ficamos ansiosos por um final happily ever after que só acontece com a morte. Pq ok, a puta casou com o milionário, mas e depois quando ela descobrir que ele tem um akita mala que segue ele pra todo canto inclusive quando eles tão transando? Nossa vida é fragmentada em vários roteiros e não num só. Na real a coisa pode até não ser tão intensa tipo ver seu amor virar picolé no atlântico, mas quem quiser tentar é só passar na CVC e agendar um cruzeiro. Uma hora vc acerta. beijo

  7. texto incrível, bitolas. e o comentário do jaime tb foi algo (\o/). e ah, eu tento assistir a harry & sally pelo menos uma vez ao ano!

  8. Esses romances bobalhões me deixam perplexo com a vida, fazendo sentimentos mil virarem meia dúzia de clichês enfiados em algumas horas de filme.
    Há quem sente e coma pipoca.
    Eu nunca tive paciência, hahaha!

  9. geeeeeeente, BEGE com o comment do Jaime Balilo! queremos Jaime postando já! haha!

  10. Sou da opinião que o é amor (a ausência ou a espera dele) que movimenta a arte e o processo criativo.
    E vou além dizendo que é a ilusão do amor – ou a certeza futura de que um dia ele virá – que movimenta o mercado de Moda, de Cosméticos, a indústria Farmacêutica, a Tecnologia Médica, enfim, que movimenta tudo.
    Pra que raios alguém quereria prolongar a vida, parecer mais jovem e mais bonito se não pela esperança de estar conservadinha para o amor da sua vida?
    Sou a prova viva disso: Se continuo gastando um dinheiro que eu não tenho em uma duobase MAC, roupas novas, academia, enfim, sendo bem sincero, se eu acordo todo dia e piso na rua como se fosse ao Oscar é justamente por querer acreditar que mais dia, menos dia serei “Felizes para sempre” – assim mesmo, no plural, como bem disse o texto, como muito me prometeu os contos Disney.

    “Até para se atravessar uma rua precisa inspiração” – Manuel Bandeira

    Um beijo.
    Adorando os Tormentos.
    Tácio Oliveira

  11. Nossa, DEMAIS o comentário do Jaime. Nunca tinha pensado a respeito… Jaime, JOIN US HERE! 😀

  12. Tácio, você muito arrasou tb! 😀
    Comentários incríveis, minha gente!

  13. Se soubessemos das coisas com certeza não fariamos tantas outras.
    E um pouco de (des)ilusão amorosa não faz mal a ninguém.
    Parabéns pelo texto, muito bom.

  14. O dia em que eu desistir de um Richard Gere numa limusine branca (pode vir com o Akita que eu tô aceitando), podem me matar, porque minha vida não terá mais graça nenhuma.
    Pra mim, idealizar o amor faz parte da vida, embora seja importante ter a consciência de que o amor real é bem menos glamuroso do que o que vemos nos filmes.
    Arrasou muito no texto, amiga!

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