FAÇA O QUE É BOM, SINTA O QUE É BOM, PENSE O QUE É BOM, BOM PRA VOCÊ!

por Renato Barreto

Hotel Room

Quando meu irmão mais velho perguntou se eu era gay, um dos primeiros comentários pós-confirmação foi: “Você deve ser muito alegre, não?”.  Ou seja, pra ele, minha sexualidade seria fator determinante para eu ser automaticamente feliz, afinal, alguém já ouviu algum hit “triste” da Cher? Por sua vez, quando eu era adolescente e me apaixonei pelo If you’re feelling sinister, do Belle & Sebastian, um amigo daqueles tempos ouviu o disco e soltou: “Que músicas tristes! isso não é coisa da nossa idade”. Ou seja, pra este amigo, a minha idade era, a despeito de qualquer contexto, motivo suficiente pra eu não dar atenção a coisas que refletissem aspectos mais introspectivos da vida. Já em uma situação mais recente, ao comentar o quanto admirava a obra do pintor norte-americano Edward Hopper, uma amiga da faculdade opinou, com certo ar de censura: “Humm, não gostei, muito intelectualóide, né? Prefiro coisas mais felizes, tipo aquele Homero Brito, sabe?”. Oi?! Pára o mundo que eu quero descer!

Meus deus, desde quando foi decretado que ser alegre e contente é uma obrigação do ser humano? De repente, comecei a refletir sobre toda essa pressão de felicidade automática e obrigatória, dessas de comercial de margarina, condicionada pela minha sexualidade, pela minha idade ou mesmo pelo meu gosto pelas artes em geral. Afunilando essa discussão interna pro aspecto cultural da coisa toda, todas essas situações exemplificam o quanto algumas pessoas, se não a maior parte delas, não aceita ou não está preparada pra encarar qualquer tipo de arte que não reflita ideais de felicidade, alegria ou beleza óbvias e/ou afetadas.

If You're Feeling Sinister

Partindo do pressuposto de que a negatividade é, sim, um valor crítico, toda nossa visão e nossos gostos pessoais precisam, a meu ver, desse contraponto pra depurar uma certa sensibilidade às coisas do mundo. Por exemplo, se alguém não aceita o fato de que o ser humano nem sempre é belo e de que o mundo nem sempre é aprazível, de que amadurecer é perder ilusões, como pode ser possível entender ou se emocionar com qualquer forma de arte que não retrate o mundo dessa forma? Pois se viver é o aprendizado da dor, o ser humano precisa de artistas que reflitam sobre isso e que produzam em cima disso. As vanguardas européias do início do século passado, por exemplo, precisaram aceitar a ruína do mundo pra dar origem a toda uma manifestação cultural que culminou, entre outros, com o surgimento do surrealismo. Nietzsche já disse, “nenhum artista suporta a realidade”.

Esses dias assisti, muito depois do lançamento, ao filme Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road), do britânico Sam Mendes, aquele que reuniu novamente Leonardo DiCaprio e Kate Winslet (musa!). Comecei a ver o filme sem muita empolgação, afinal, nunca levei o DiCaprio muito a sério. Só que, para minha surpresa e deleite, o filme foi um soco no estômago. Sério. Desses filmes viscerais e desconcertantes que jogam na sua cara uma realidade nua e crua, sem rodeios. Nossa, o filme me deixou muito pensativo e conturbado, por certo momento. Mas é disso que eu gosto! De choque de realidade, de beleza nua e crua, sem rodeios. E, claro, de diretores e atores corajosos e talentosos!

Revolutionary Road

Não estou defendendo aqui que todo mundo deve cultuar valores negativos ou somente apreciar coisas “não populares”, ser “cult” o tempo todo e virar as costas ao que faz sucesso em larga escala. Isso comprometeria totalmente minha apreciação por cultura pop, por exemplo! A questão é outra, e mais profunda. O que questiono é qual arte se espera do mundo – algo que retrate a vida como ela é, dual e contraditória, ou algo que reflita apenas ideais ou ilusões unilaterais? Em termos psicológicos, as pessoas precisam do recalque da dor pra impulsionar o consumo o ser humano precisa de escapismo e a todo tempo precisamos de validações de felicidade (quer a tenhamos, quer a busquemos), mas acho válido ter coragem de ir mais fundo e enfrentar este outro lado, menos valorizado e mais ignorado, das artes, de forma geral. Assim, me sentiria menos inadequado por não ser um gay estereotipado como “alegre”, menos equivocado por também me emocionar com belas canções não-sacolejantes e menos intelectualóide por ficar dias consternado com um filme, um livro ou um quadro que me fez pensar e questionar o sentido da minha própria existência, ou destes “alguns tormentos” que me afligem.

Até!

PS: Nem bem terminei de escrever esse post e leio num jornal o seguinte parágrafo de uma noticia sobre a “primeira escola homossexual do país”:

“Alto astral, música e bandeira com as cores do arco-íris. Tudo isso em uma casa cor-de-rosa, em um lindo sábado ensolarado. Não poderia ter sido diferente o dia a inauguração da Escola Jovem GLBT,  em Campinas(…)”.

Ah, se meu irmão lesse isso…

fina.

Anúncios

7 Respostas para “FAÇA O QUE É BOM, SINTA O QUE É BOM, PENSE O QUE É BOM, BOM PRA VOCÊ!

  1. Hahahahaha sensacional a aparição relâmpago de Vanessão!
    =D
    Como já te disse, amei o texto. 😉

  2. Adorei o texto!
    Bastante interessante a forma como você expressou sua opinião acerca dos “ideais” que o mundo tem sobre as emoções e a forma com que ele relaciona idade, gênero (entre outros fatores) à sensação interior de cada individuo. Como o indivíduo deve se sentir. Nonsense!
    Cada um vê e sente a realidade de forma diferente, e acredito que o simples fato de compreender isso já altera nossas percepções e proporciona algum entendimento.
    Tangendo esse assunto está um artigo que li e achei bastante interessante sobre o o indivíduo desenvolver sua plenitude através da comunhão entre emoções, sentimentos e pensamentos distintos, sendo esses de valências diferentes, inclusive.

    Legal o texto, gostei!

  3. “ninguém disse que ser feliz e forte é não ter sofrimento algum.” última frase na terapia da semana passada

  4. vou te dizer que este post vale mais do que FINTY reais. genial, como sempre, FLOR! =]

  5. Concordo que felicidade transcende a ideia de efusividade afetada.
    Todavia, sou da opinião que a vida em qualquer grande metrópole é corrida e estressante ao ponto de atravessarmos o dia (do alvorada ao por do sol) tentando, com uma ruga na testa, unir as duas sobrancelhas em protesto contra a vida urbana, o trabalho, o salário, o aperto no coletivo.
    Saberdor disso, prefiro – não sei se por bobeira, se por lifestyle, por fuga – fugir das literaturas e artes que deprimam em excesso (visitando em momentos bem pontuais autores como Caio F. e Clarice) gastando meu tempo e minhas pestanas debruçado nas letras dos folhetinistas contemporâneos a Fernando Sabino (meu favorito!).
    Sabedor disso – e defendendo a idéia de que a vida urbana é mais triste do que alegre – vivo em ato de protesto contra as expressões fechadas, contra o policial civil que saca a arma ao ser ofendido no trânsito da Consolação, contra as filas interminaveis dos bancos às 2 da tarde, contra a falta de educação paulistana/carioca/brasileira/ser-humana. Enfim, gosto de fazer do sorriso e do que faz sorrir o “contraponto pra depurar uma certa sensibilidade às coisas do mundo.”

    Um beijo, Rê!

    Ps- Apesar de termos ideias opostasm, o texto delicioso e fluído me fez refletir sobre a arte e a vida urbana e auto-afirmou o meu gosto de viver em São Paulo. =]

    • Que ótimo texto, Rê!
      “Foi Apenas Um Sonho” foi um filme que recomendei pra todo mundo, tamanho o impacto que ele exerceu sobre mim. Bom saber que ele também te perturbou.
      Beijo.

  6. MEU! li a só agora o texto e me arrependi de não ter lido antes (pq internet é isso aí de rapidez, né?)! fiquei impressionado com o quanto dialogou comigo. jóia!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s